Amadeu
Ferreira, natural de Sendim, 50 anos de idade, e a exercer funções docentes na
Faculdade de Direito de Lisboa, concordou em dar uma entrevista ao «Cartolinha»
via Internet.
Adelaide: Dr.
Amadeu Ferreira, como encara a vida de docente universitário e a sua vida
profissional em geral longe das suas raízes?
Amadeu Ferreira: Como alguém que se sente dividido entre dois mundos, vivendo em ambos e tendo lançado raízes num e noutro. Mas isso não é um drama, sobretudo agora que há tanta facilidade de contactos. Procuro manter as minhas raízes bem vivas, regando-as constantemente com a água das fontes onde bebi desde criança. Assim, vou lavando a alma quando tanta coisa me dói no dia a dia, mas sem deixar que isso constitua uma fuga ao dia a dia ou permita mitificar um passado que não é um paraíso perdido. Considero que um falso romantismo em relação às nossas raízes ou ao passado é a melhor maneira de fazer com que nada mude e, ao mesmo tempo, ficarmos de bem com a nossa consciência.
P: Quais são
as suas melhores lembranças da nossa região?
R: É difícil responder, quer porque as lembranças
formam um todo incindível quer porque mantive sempre viva a minha ligação o
que não me deixa viver só de lembranças. Mas não posso ignorar que são
muitos fortes as lembranças das pessoas, muitas pessoas, e de momentos fortes
que passei com elas, certos sítios e cheiros que se entranharam em mim e vão e
vêm ao ritmo das estações, as brincadeiras de criança, os momentos solenes
da comunidade e, sobretudo, a sua luta sem desfalecer por uma vida melhor. Sem
essas e outras lembranças creio que hoje não veria o mundo da mesma maneira.
P: Sabemos que a Língua Mirandesa é muito
importante para si. Quais foram, na sua opinião,
as principais etapas no seu processo de recuperação?
R: Há dois factos que constituem a viragem: a aprovação
da lei nº 7/99 que consagrou o mirandês como língua oficial e a publicação
da Convenção Ortográfica e respectiva Adenda relativa ao Sendinês. Como
factos mais recentes destaco: o início da publicação de uma colecção em língua
mirandesa na Editora Campo das Letras, na medida em que colocou o problema da
necessidade de uma literatura em Língua Mirandesa; o início do processo de
internacionalização da língua mirandesa, traduzido em três iniciativas – o
convite para integrar o “Bureau Européen des Langues Regionales et
Minoritaires”, a realização neste ano do V Simpósio Internacional das Línguas
Regionais e Minoritárias, e o início do processo de adesão do Estado Português
à Convenção Europeia das Línguas Minoritárias. Para o futuro próximo realço:
o alargamento do ensino do mirandês a todos os graus de ensino, em particular o
primário; a constitutição do Anstituto de Lhéngua i Cultura Mirandesas.
P: Nunca sentiu problemas por defender o Mirandês
quando na sua terra se fala a variante do Sendinês e nós sabemos que os
Sendineses se dizem muito «bairristas»?
R: Falar em problemas é um exagero. Há diferenças
e há bairrismos e isso é uma coisa boa pois traduzem a história e a cultura
de cada povo. Mas defender a diferença não pode levar a ignorar que o
essencial é o que nos une e incentivar o bairrismo não pode ser o olhar só
para o nosso umbigo. Sem o sendinês o mirandês fica mais pobre, mas fora do
mirandês o sendinês perde sentido. Não perceber uma e outra realidade é
‘dar um tiro nos nossos próprios pés’. Por isso, falar no mirandês é
falar simultaneamente no sendinês. Eu tenho procurado atingir um duplo
objectivo: por um lado, que os mirandeses, em geral, conheçam o sendinês, pois
a quase totalidade das atitudes de exclusão em relação a ele derivam da pura
ignorância; por outro lado, que os sendineses percebam que a sua integração
no mirandês em nada atinge as diferenças que tanto prezam e que devem
continuar a preservar. Creio que tudo se resolve com tempo, com esclarecimento e
com respeito pelas pessoas. Era o que faltava que os mirandeses nos tratássemos
uns aos outros como os falantes de português sempre nos trataram!
P:
Como é que surgiu a ideia de criar a Associação de Língua Mirandesa e quais
os objectivos desta Associação?
R: A ideia surgiu da seguinte pergunta: onde estão os falantes de
mirandês que possam aguentar, desenvolver e promover a sua língua? Ora não
estão só na Terra de Miranda. Em Lisboa calculamos que existam cerca de 2000,
o que corresponde a quase um terço da população do concelho de Miranda. A
Associação surgiu como forma de organizar toda essa gente com o objectivo de
lutar pela nossa terra e, em particular, por aquilo que ela tem de mais
precioso, a sua língua. Oxalá a ideia se concretize noutras cidades/regiões
onde haja mirandeses.
P:
O que é preciso para pertencer a esta Associação? Onde está instalada?
R: Basta fazer-se associado e comprometer-se a cumprir os objectivos que
referi. Nem é necessário ser mirandês, bastando ser amigo da língua
mirandesa. Estamos à procura de instalações junto das câmaras da região de
Lisboa, mas qualquer contacto pode ser feito para a morada provisória: Rua D.
Estefânia, 197, 3ºA, 1000 Lisboa ou para o e-mail amadeuferreira@cmvm.pt
P:
Sabemos que a Editorial Campo das Letras está a publicar uma colecção de
livros em Língua Mirandesa. Quantos livros foram já publicados? Têm tido
procura?
R: Foram publicados “Cebadeiros”, de Fracisco Niebro e “Cuntas de
la Tierra de las Faias”, de António Bárbolo Alves. A procura penso que tem
sido boa, embora ainda não tenha dados oficiais da editora.
P:
Qual será o próximo título a ser publicado?
R: “Las Cuntas de tiu Jouquin”, um livro de contos de Fracisco
Niebro, que sairá ainda antes do verão.
P:
«Cebadeiros» é uma obra sua que faz parte desta colecção. A que tipo de
leitores se destina principalmente?
R: Quando o escrevi não pensei em nenhum tipo de leitores. Pensei
sobretudo em duas pessoas: Fracisco Niebro e Amadeu Ferreira. Uma vez publicado
o livro, já nada mais posso fazer cabendo aos leitores apropriar-se dele.
P:
Pode explicar-nos a razão da escolha do pseudónimo «Fracisco Niebro»?
R: O Amadeu Ferreira sempre escreveu e publicou livros em português,
nomeadamente na área do direito. Como escritor de português, o Amadeu Ferreira
nasceu numa tarde soalheira do princípio de Outubro de 1957 quando entrou na
escola primária de Sendim com uma fardela de estopa a tiracolo i uma pedra de
escrever. À porta dessa escola deixou uma outra criança que, na altura, só
sabia falar mirandês e, teimosa, continuou sempre a falá-lo, mas nunca lho
ensinaram a ler e escrever. Eu limitei-me a ir buscar essa criança, ensinei-a a
escrever, e ela pagou-me escrevendo o seu mundo e o tempo que por ela passou
desde então e isso são os “Cebadeiros”. Para não pagar multa pelo atraso
no registo, dei-lhe o nome dos dois avós (Fracisco) i o de uma árvore rija (Niebro)
em homenagem ao povo mirandés, que foi capaz de aguentar a sua língua durante
mais de mil anos.
P:
Sabemos que desempenhou um papel importante na ratificação por parte de
Portugal da Convenção Internacional das Língua Minoritárias. Qual é
a importância desta ratificação?
R: A questão já foi colocada há vários anos por outras pessoas, mas
não avançou. Por isso foi, recentemente, retomada pela comissão instaladora
do Anstituto de Lhéngua i Cultura Mirandesas. O processo de ratificação está
ainda em Curso, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do
Instituto Camões. A importância deriva de vários factores de que destaco:
juntar o mirandês à família europeia das línguas minoritárias; alargar os
direitos linguísticos para além
do que está reconhecido na lei 7/99; comprometer o Estado português em novos
apoios à língua mirandesa.
P:
2001 é o Ano Europeu das Línguas.Está a ser preparada alguma comemoração
especial em Miranda do Douro?
R: Sim, a Câmara tem previsto realizar uma grande festa no Dia da Língua.
P:
No próximo mês de Maio vai ser apresentado ao público pela Editora Meribérica
/ Líber a tradução em Mirandês da primeira aventura do Astérix – Ua
abintura d’Asterix l Goulés .
Como surgiu esta ideia?
R: A ideia partiu da própria Meribérica, na sequência de uma orientação
internacional para comemorar os 40 anos do Astérix, traduzindo-o em várias línguas
minoritárias como o mirandês.
P:
Foi complicado fazer a tradução deste livro, respeitando o texto original?
R: Foi fácil, embora muitos nomes e expressões tivessem de ser
adaptadas à língua mirandesa, embora respeitando o original. Optamos por
alterar muitos dos nomes e creio que isso vai surtir um bom efeito. Nessa tradução
colaborou uma equipa de entusiastas, para além de mim: o Dr. Domingos Raposo, o
Dr. Carlos Ferreira e o Dr. António Santos que é o presidente da comissão
executiva da vossa Escola e de quem partiu o primeiro contacto, facto que muita
gente desconhece.
P:
Que expectativas tem em relação ao ensino do Mirandês nas nossas escolas?
R: Espero que dentro de dois a três anos esteja implantado em todas as
escolas da Terra de Miranda desde a infantil até à Secundária. Espero também
que nesse período se desenvolva o ensino universitário. Nada disso é fácil
sobretudo no que respeita aos professores, mas creio que será possível com o
apoio das escolas, da Câmara e de outras instituições. Até lá há que
trabalhar muito: elaborar programas e homologá-los, manuais, definir melhor o
estatuto dos professores, fazer formação, etc.
P:
Acha que esta disciplina vai ter adesão por parte dos alunos?
R: Tenho a certeza que sim. Se não aderirem é porque não fomos
capazes de lhes mostrar que o mirandês está muito ligado ao seu futuro e que
essa é uma mais valia que os pode distinguir, pela positiva, de quaisquer
outros jovens a nível nacional. Penso que o mais difícil é convencer os pais,
os professores, as instituições e a sociedade em geral a apoiar o ensino do
mirandês como a base da maior revolução que até agora se fez nas Terras de
Miranda e como uma fonte extraordinária de riqueza económica e de orgulho para
todo o povo mirandês.
P:
Que projectos tem para o futuro?
R: Não tenho projectos especiais, para além de continuar o que tenho
vindo a fazer. No que respeita ao mirandês o futuro depende do que formos
capazes de fazer hoje. O futuro é hoje pois amanhã pode ser tarde. Só tenho
um sonho: ver cada vez mais mirandeses a defender, promover e aprender a
escrever a sua língua. E confio muito nos jovens: acho que só eles serão
capazes de nos fazer ter maior orgulho no mirandês, pois as pessoas da minha
geração não têm dado boa conta do recado. Adelaide: se houver próxima
entrevista será em mirandês, combinado?
Adelaide:
Muito obrigado pela entrevista!
Adelaide Garcia, 12ºC